28% das mulheres vítimas de violência doméstica no RN não reconhecem agressões

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Levantamento ouviu 21.641 mulheres com 16 anos ou mais, entre 16 de maio e 8 de julho, em todas as unidades da Federação.

Segurança Pública

27/08/2026

Cerca de 28% das mulheres do Rio Grande do Norte relataram ter vivido, nos 12 meses anteriores à pesquisa, ao menos uma situação concreta de violência doméstica ou familiar, mas não reconheceram espontaneamente essas experiências como violência.

O percentual é próximo da média nacional, de 29%, segundo a atualização do Mapa Nacional da Violência de Gênero, elaborado pelo Observatório da Mulher contra a Violência (OMV), Instituto Natura e Gênero e Número.

Os dados são da 11ª Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, realizada pelo DataSenado em 2025. O levantamento ouviu 21.641 mulheres com 16 anos ou mais, entre 16 de maio e 8 de julho, em todas as unidades da Federação.

“Ampliar a Rede de Proteção é fundamental, mas os dados mostram que precisamos olhar também para o que acontece antes de a mulher chegar na Rede. Uma política pública só consegue proteger plenamente quando as mulheres têm informação para reconhecer a violência, conhecem seus direitos e encontram caminhos acessíveis e seguros para buscar ajuda”, afirma Maria Teresa Prado, coordenadora do Observatório da Mulher contra a Violência do Senado Federal.

Violência relatada pelas potiguares

No RN, 21% das mulheres disseram já ter sofrido violência doméstica ou familiar praticada por um homem ao longo da vida. Entre elas, 18% passaram por esse tipo de situação nos 12 meses anteriores à pesquisa.

Entre as principais formas relatadas estão violência psicológica, com 86%, moral, com 82%, e física, com 80%. Em 66% dos casos, o agressor era o marido ou companheiro da vítima no momento da agressão.

O levantamento aponta ainda que 20% das vítimas continuam convivendo com o agressor. Dentre essas mulheres, 82% moram com ele.

Nas situações consideradas mais graves, 49% disseram que o agressor estava bêbado, enquanto 45% citaram ciúmes e 43% afirmaram que ele estava inconformado com o término ou tentativa de término do relacionamento.

Entre as mulheres que romperam com o agressor, 75% afirmaram que a violência teve muita influência na decisão.

Impactos vão além da agressão

Os efeitos da violência também aparecem na rotina das vítimas. Segundo a pesquisa, 70% relataram impacto na vida diária, 63% no convívio social, 48% no trabalho e 40% nos estudos.

“Os dados ajudam a romper com uma leitura da violência doméstica como um episódio isolado e que a violência não termina quando a agressão acaba. Ela reorganiza a rotina, afeta relações, trabalho, renda e as possibilidades que uma mulher tem de tomar decisões sobre a própria vida. Quando olhamos para esses dados em conjunto, conseguimos entender que enfrentar a violência de gênero exige mais do que responder à agressão: exige políticas capazes de olhar para as condições que permitem que essas mulheres reconstruam suas vidas”, afirma Vitória Régia da Silva, diretora executiva da Gênero e Número.

Conhecimento sobre proteção ainda é desigual

A Delegacia da Mulher é conhecida ou já foi ouvida por 94% das potiguares, enquanto 78% conhecem o Ligue 180. Já 70% afirmaram conhecer pouco a Lei Maria da Penha e 11% disseram não conhecer nada sobre a legislação.

Em relação às medidas protetivas, 69% declararam conhecer pouco o mecanismo e 17% afirmaram não ter conhecimento sobre ele.

Entre os serviços mais conhecidos pelas entrevistadas estão a Delegacia da Mulher, com 94%; a Defensoria Pública, com 86%; os Centros de Referência de Assistência Social ou Especializados de Assistência Social (CRAS ou CREAS), com 81%; e o Ligue 180, com 78%.

O levantamento também mostra que 68% das potiguares conhecem alguma amiga, familiar ou pessoa próxima que sofreu violência doméstica ou familiar.

Além disso, 76% perceberam aumento da violência doméstica e familiar contra mulheres nos 12 meses anteriores à pesquisa. Para 70%, o Brasil é um país “muito machista”.

Experiência vivida nem sempre é chamada de violência

No cenário nacional, a pesquisa revela uma diferença expressiva entre declarar espontaneamente ter sofrido violência e reconhecer situações específicas quando elas são apresentadas às entrevistadas.

Quase 29 milhões de brasileiras sofreram violência doméstica ou familiar nos 12 meses anteriores ao levantamento. Desse total, 24,97 milhões, cerca de 87%, relataram situações compatíveis com violência, mas não as classificaram espontaneamente dessa forma.

Outras 1,87 milhão de mulheres disseram ter sofrido violência, mas não procuraram a delegacia, o Ligue 180 ou o 190. Juntos, os dois grupos representam 26,84 milhões de brasileiras, ou 93,6% das vítimas, que ficaram fora da busca por proteção policial.

“Para quase 25 milhões de brasileiras, a violência aparece apenas quando perguntamos o que aconteceu, mas desaparece quando perguntamos diretamente se elas sofreram violência. Isso revela uma barreira anterior ao próprio acesso à política pública: reconhecer e nomear o que se está vivendo. Se a mulher não reconhece o que vive como violência, torna-se muito mais difícil procurar proteção e acolhimento. Por isso, informação de qualidade não é algo acessório: é parte fundamental de qualquer política pública de enfrentamento à violência contra as mulheres. Não basta que a rede esteja preparada para acolher quem chega; precisamos também criar caminhos para alcançar quem ainda não consegue reconhecer que pode buscar ajuda”, afirma Beatriz Accioly, gerente de Políticas Públicas pelo Fim da Violência contra as Mulheres do Instituto Natura.

Apenas 4% das brasileiras declararam espontaneamente ter sofrido violência doméstica ou familiar nos 12 meses anteriores. Quando foram apresentadas situações específicas, sem o uso direto do termo “violência”, o índice chegou a 33%.

“Creio que a grande contribuição do Senado Federal seja revelar a realidade da violência doméstica contra as mulheres, em todas as unidades da Federação, e, mais importante, expor claramente como esta realidade ainda está muito distante dos registros oficiais de todas estas localidades, logo, do alcance de políticas públicas efetivas. O Mapa Nacional não é apenas mais um agregador de dados sobre o tema, ao contrário, é talvez o principal instrumento público, efetivo, capaz de expor, comparar, confrontar e mudar a realidade vivida, a cada 12 meses, pelas mulheres no Brasil”, afirma José Henrique Varanda, coordenador do Instituto de Pesquisa DataSenado.

Diogenes dantas ao centro da imagem vestido de terno preto, ele sorri.

Diógenes Dantas

é jornalista e radialista do Rio Grande do Norte, com mais de 40 anos de carreira. Formado em Comunicação Social pela UFRN e em Direito pela UnP, atuou em diversos veículos locais e nacionais, como Tribuna do Norte, Diário de Natal, TV Globo, TV Record Brasília, SBT, Band e nas rádios 98 FM, 91,9 FM e 103,9 FM. Foi diretor-geral da TV Assembleia Legislativa do RN, coordenador de Comunicação da Potigás e assessor da Presidência da Petrobras. Atualmente, edita e apresenta o programa Contraponto, na rádio 96 FM.

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